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Vida de luta
Letícia do Prado tem 36 anos e muita história de vida para
contar. Ela nasceu em Porto Alegre, no Hospital da Santa Casa. Sua mãe
biológica havia saído de Barão do Triunfo, interior
do RS, em emprego, para tentar a vida na cidade grande. Icelva saíra
do interior sem emprego, sem escolaridade e sem ninguém conhecido
na Capital. Ela conseguiu um emprego como doméstica e, como já
tinha um filho, seus patrões foram taxativos quando ela ficou grávida
de Letícia: uma criança apenas moraria na casa deles.
Ao nascer, ela foi doada para ficar sob tutela do Estado, e ficou 1 ano
no (hoje extinto) Lar do Bebê. Letícia foi adotada por um
viúvo (que até hoje consta como seu pai, na certidão
de nascimento), que morreu logo depois, atropelado. Letícia foi,
então, encaminhada para a Aldeia da Fraternidade, quando tinha
um pouco mais de 1 ano de idade. "Aprendi a caminhar aqui na Aldeia
– na verdade, aprendi muito aqui, nem dá pra enumerar",
diz. Letícia cresceria numa das 6 casas-lares ad entidade, dividindo
tudo com cerca de 80 crianças que, como ela, haviam sido abandonadas.
Cresceu com um forte senso de coletividade e, ao mesmo tempo, com uma
noção que a acompanharia por toda a vida – a de que
ela mesma era responsável pela própria felicidade, e mais
ninguém. "Havia sempre a tristeza por ter sido abandonada,
mas a minha noção de individualidade cresceu muito também
– alguns podem confundir com egoísmo, mas eu chamo apenas
de responsabilidade – eu sempre soube que, se eu não fizesse
algo por mim, ninguém ia fazer".
Letícia morou na Aldeia até os 18 anos e começou
a trabalhar 2 anos antes, na própria creche da Aldeia, para custear
sua moradia lá. Um pouco depois, começou a estudar Magistério
no Colégio Cruzeiro do Sul (hoje IPA), com uma vaga conseguida
pela Aldeia. Estudou 4 anos e voltou a fazer estágio na Aldeia,
com seus irmãos – todos que cresceram na Aldeia se consideram
irmãos. O que ela não esperava era descobrir que um dos
professores da Aldeia que ela mais adorava era seu irmão biológico,
Dartagnan. Os dois descobriram que eram irmãos porque Icelva, mãe
dos dois, fez uma campanha através da Rádio Farroupilha
para descobrir o paradeiro dos filhos que havia doado. "O incrível
de tudo isso é que ele, que foi meu professor de matemática,
sempre me tratou como irmão mesmo", diz ela. O reencontro
com a mãe foi "pesado", já que, além de
lidar com o abandono dela, Letícia descobriu que tinha 3 irmãos
mais novos que haviam ficado com a mãe. "Foi muito difícil,
mas fui conhecer meus 6 irmãos. Quando completei 18 anos, fui morar
com minha mãe biológica, mas nossa convivência era
complicada". Letícia decidiu, então, que era a hora
de casar com Rodrigo Brasil, com quem teve três filhos: Ahryadne,
de 12 anos, Stephanie, de 10 e Nicholas, de 8. Os 3 participam do SASE
– Serviço de Apoio Sócio-Educativo – da Aldeia
da Fraternidade.
Letícia cursou Pedagogia na Uniritter, e 4 anos depois, estava
formada. Trabalhava em uma creche particular para pagar a faculdade e,
hoje, trabalha na Aldeia, onde atua como Coordenadora Pedagógica
da Educação Infantil. "Corri atrás dos meus
sonhos e lutei por eles. Quero dar o exemplo para as crianças da
Aldeia de que vale à pena se esmerar para estudar". Letícia
tem muito carinho por 3 pessoas, fundamentais na sua trajetória:
a mãe SOS, Irene; o pai SOS, Aldo e a madrinha SOS, Amanda, que
seus filhos chamam de avó. "Sinto que, trabalhando na Aldeia,
estou devolvendo tudo o que a Instituição fez por mim e,
para mim, esta é uma forma de incentivar as crianças a acreditarem
mais em si próprias".

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